quinta-feira, janeiro 07, 2010

Tentando ter paciência

Na sua coluna de opinião no jornal PÚBLICO, Helena Matos afirmou que, a partir do momento em que se legaliza o casamento entre pessoas do mesmo sexo, estamos a um passo de um dia legalizarmos a poligamia. Não acredito que preciso de escrever um post para refutar uma afirmação de tão baixo nível, mas há alturas em que é preciso sujar as mãos.

Sim, de facto, sempre que usamos a inteligência para colocar a cultura em causa, abre-se um infinito de possibilidades. Não é só o casamento poligâmico. É também o enlace entre humanos e animais, entre humanos e cadáveres, entre humanos e exemplares do "Guerra e Paz", entre humanos e o papier mâché.

No entanto, aposto que, no fundo, Helena Matos sabe que o casamento entre pessoas do mesmo sexo não equivale à poligamia. Em primeiro lugar, nunca ouço falar de uma situação poligâmica na qual uma mulher seja bafejada pela sorte de um harém masculino. Acontece invariavelmente o contrário (e ainda menos ouço falar na necessidade profunda que têm os cultores da orgia de se unirem em matrimónio...) . O problema central da poligamia é que ela resulta sempre de um aviltamento da mulher, que deixa de ser considerada na sua inteireza e individualidade para fazer parte de um número, e para perder a dimensão absoluta dos seus "direitos" matrimoniais. De qualquer modo, a poligamia praticamente não existe em Portugal, enquanto a homossexualidade sempre houve, e com uma expressão profundamente significativa.

A questão da relação entre culturas parece-me de resolução tão simples, que me espanta a quantidade de genocídios culturais que infestaram, infestam e infestarão a nossa História: temos de respeitar todas as dimensões de uma outra civilização, à excepção daquelas que claramente prejudicam a dignidade e liberdade de cada ser humano. Assim sendo, não havia razão nenhuma para que os missionários dos Descobrimentos tivessem contrariado a nudez imemorial com que os índios sul-americanos se expunham ao mundo, na medida em que isso não causava dano a ninguém (e se os europeus se sentiam lesados, que voltassem para para casa, pois esse outro continente estava previamente povoado por outras civilizações). Pelo contrário, a situação da mulher na cultura árabe (a despeito dos aspectos fascinantes que essa cultura possui) tem de ser firmemente condenada por quem tiver o mínimo de espinha dorsal.

Toda esta algaraviada para dizer que, por razões éticas, não tenho de aceitar a poligamia de certos países, e que esta não se coloca no mesmo plano de legitimidade de um contrato livremente celebrado por duas pessoas que se predispõem a um cuidado mútuo e exclusivo. Passando por cima do verdadeiro problema a partir do qual se ergue a deformação poligâmica (que é o facto de continuarmos a confundir a fidelidade do amor, que é espiritual, com o empobrecimento da vida erótica), eu informo Helena Matos que a diferença das duas situações tem ainda uma nuance mais grave. É que não me parece que haja, no nosso contexto, um historial de sofrimento por causa da poligamia. Haverá infidelidades, divórcios, crimes passionais, ménages à trois, sim, mas na civilização ocidental contemporânea devem ser raros aqueles que foram fisicamente perseguidos, socialmente marginalizados ou juridicamente menorizados por causa das suas convicções poligâmicas. O mesmo não se pode dizer dos homossexuais. É precisamente porque o casamento é mais do que um mero contrato, é porque tem um peso simbólico sem paralelo, que ele pode funcionar como um passo fundamental na desmontagem da homofobia.

O casamento (e, em sentido mais amplo, a família) foi questionado pela cultura moderna mais revolucionária. E teve de ser assim. As monstruosidades a que a célula familiar pode conduzir (por exemplo, podemos ser sexualmente monogâmicos toda uma vida, sem sentirmos o menor afecto ou mesmo respeito pelo cônjuge que usufrui dessa exclusividade...) exigiram esse momento de crítica. Mas o casamento só ganhou com isso: deixou de ser uma imposição independente da consciência do indivíduo para se configurar como uma possibilidade livre de felicidade. Aliás, não deixa de ser curioso que Jerónimo de Sousa seja um homem de família, e Paulo Portas, não. A manutenção da exclusividade do casamento nas mãos dos heterossexuais é uma forma de adiar a libertação dos homossexuais da cultura que, por razões de marginalização, acabaram por assumir, e que se traduzia na dificuldade sobejamente conhecida de constituir relações estáveis.

Quanto à questão da adopção, devo dizer que concordo com a ideia de que esta deve ser mantida no âmbito dos direitos da criança. Por isso, e para que não haja casamentos de primeira e casamentos de segunda, eu sugiro que se retire o direito de adoptar do instituto do casamento entre pessoas de sexo diferente. Exactamente porque falamos de direitos da criança, e não dos adultos. A partir deste pressuposto, cada caso de adopção seria avaliado exclusivamente em função da rigorosa idoneidade do ou dos adoptantes, e não da sua situação conjugal (e de qualquer modo, a legitimidade científica da adopção por casais do mesmo sexo, problema distinto do casamento, deverá ser avaliada por sérios profissionais de saúde mental, e não por padres, políticos, ou senhoras que usam laca no cabelo).

Compreendo que esta é uma mudança imensa. É verdade. Mas o mundo também um dia se tornou cristão em detrimento de toda a cultura anterior, eu sou agnóstico e considero-me violentado porque em criança tive uma educação católica. E o mundo também se tornou capitalista em detrimento de uma cultura económica mais humilde na sua relação com os recursos, e eu tenho de sobreviver numa sociedade onde me sinto diariamente agredido pelas estratégias da ganância. O que estou a tenta dizer é que aquilo que me querem impingir como autoridade imemorial, como um "sempre foi assim", só foi assim a partir de uma determinada altura.

E porque não sou suficientementemente político para dizer apenas aquilo que é conveniente, afirmo que, por razões morais, mais depressa deixava entrar em minha casa um polígamo do que uma pessoa com uma cruzada moralista.

7 comentários:

Themis Artaud* disse...

Primeiramente, adorei a forma como expões o teu ponto de vista. E fora isso, concordo plenamente com aquilo que disseste. A senhora que aprenda o que é o amor entre duas pessoas e depois, caso tenha algo de jeito para falar, abra a boca. Para barbaridades destas mais vale não dizer nada.

pedroludgero disse...

Obrigado pelas tuas palavras.

Normalmente, tento não perder tempo com "coisas destas", mas às vezes é preciso ser "curto e grosso".

Ricardo Vasconcelos disse...

Parabéns pelo teu texto, Pedro. Concordo plenamente com o que dizes. Lembras-te do filme do Woody Allen em que uma família numerosa (judia, em Manhattan) tem um filho superconservador, e no fim descobrem que ele tinha um bloqueio numa veia do cérebro, que impedia o oxigénio de ventilar a cabeçorra? Pode ser que entretanto encontrem uma cura para a doença em Portugal (e não só)... Abraço

pedroludgero disse...

Em breve, o cabodaboatormenta fará publicidade ao teu livro. :)

rafael Costa disse...

Existe algum problema com esse tipo de pessoas, que subjugam culturas e vontades não maléficas por um preconceito tosco.

É necessário impor o que queremos e não ter medo da retranca, tal qual fizestes com este texto.

Acima de tudo, somos humanos, e quanto mais consciência disso, mais humanos devemos ser.

Ainda acredito numa humanidade baseada no respeito (aquele não político, mas sim de igualdade perante as diferenças).

Abraços

Rafa

rafael Costa disse...

Existe algum problema com esse tipo de pessoas, que subjugam culturas e vontades não maléficas por um preconceito tosco.

É necessário impor o que queremos e não ter medo da retranca, tal qual fizestes com este texto.

Acima de tudo, somos humanos, e quanto mais consciência disso, mais humanos devemos ser.

Ainda acredito numa humanidade baseada no respeito (aquele não político, mas sim de igualdade perante as diferenças).

Abraços

Rafa

pedroludgero disse...

Obrigado pelas tuas palavras, Rafa.