domingo, janeiro 17, 2010

O registo da vertigem

Algumas palavras sobre o mais recente livro que editei, e que foi ontem apresentado num filo-café em Vila Nova de Gaia:


Independentemente da opinião dos seus prováveis leitores (que é a opinião que verdadeiramente releva), os meus "sonetos para-infantis", escritos entre 2002 e 2003, (há uma eternidade, portanto) constituem a primeira colectânea de poemas que eu assumo como estando plenamente dominada. Nenhuma vaidade aqui: quero apenas dizer que este é um livro que, se tivesse de o rescrever, não lhe alteraria nada (o mesmo não posso dizer das duas recolhas previamente publicadas). Não o rescreveria, portanto.

A intenção que animou a elaboração destes poemas (muitos dos textos não são na verdade sonetos, o título resultando parcialmente do nonsense que eu aprendi com John Donne e os seus "Songs and sonnets") foi a tentativa de construir uma espécie de poesia rupestre. Sem nostalgia. Rupestre enquanto exploração do lugar pré-histórico de cada vivente (a infância). Rupestre também enquanto recuperação quase paródica das cosmogonias que estiveram na origem do fenómeno poético. Rupestre enquanto escrita sobre a pedra (sobre o Pedro...).

Tenho a ligeira sensação de que, se pudesse fazer cinema, acabaria por realizar um filme mudo. E se usufruísse do menor talento pictórico, vejo-me a grafitar os muros de pedra da cidade com os seres que sobre mim exercem magia (os que quero caçar, os que domestiquei, os que me atemorizam). Como disse atrás, não me considero um nostálgico. Simplesmente, assim como a infância é um cimento fresco que para sempre guarda todas as marcas que nele foram feitas, acredito que todas as actividades criativas se exercem numa relação de amor-ódio com os seus momentos fundadores. Em ambos os casos (pequena história biográfica, grande história da criação), aquele que se empenha amorosamente na vida é obrigado a registar a vertigem que acompanha essa queda desde o início (repare-se que a queda não precisa de ser uma figura com conotação negativa).


"na idade adulta
o único trabalho
infantil
lícito ou talvez implícito
quem sabe
é o registo da vertigem"


O livro está dividido em duas partes. A primeira chama-se "Descoberta" e regista a recepção do mundo por uma criança-poeta. Da parte do mundo que não teve autoria humana (o céu, as estrelas, o sol, o cometa, a lua, a nuvem, a chuva, a neve, o fogo, o vento, a montanha, o vulcão, o lago, o rio, o mar, a ilha, a árvore, a flor, os frutos, o pássaro). São poemas intuitivos, de leitura muito simples, de intencionalidade mágica. A secção termina com o primeiro soneto propriamente dito, intitulado "o Homem".

O Homem é, pois, aquele ser que, recebendo de bandeja o mundo que a sua infância descobre, tem posteriormente de o reinventar, de sobre ele edificar um edifício de mundividência onde a tristeza entra pela primeira vez (a queda, sentenciada por Deus no Génesis, adquire uma pertinência pejorativa). O soneto é talvez a forma poética que mais celebridade adquiriu no ocidente (o seu equilíbrio é notável), e por isso surge aqui como metonímia das glórias e das monstruosidades da cultura. Nada se opõe tanto ao rupestre como o soneto. No entanto, a minha paixão quase irracional pelos números 2 e 7 foi determinante para esta escolha mais-do-que-técnica.

A segunda parte chama-se "Invenção". Nela, a criança, fantasma de um génio (como na pintura de Paul Klee que ilustra a capa do livro), torna-se um demiurgo a partir do seu próprio corpo. São textos onde a sintaxe foi deturpada para simular uma escrita primitiva (mas que assim adquirem uma musicalidade estranha). Têm ideias ocultas (por exemplo, quase todos os poemas se referem a invenções humanas concretas, como a roda, o avião, a fotografia, etc.), precisam de ser esgaravatados para produzirem algum sentido, e mesmo quando uma clareira neles se abre, ela não possui o carácter de evidência dos textos da primeira parte. Toda a secção está organizada em torno de uma contagem decrescente desde um número limite, o cem (também número mágico), mas que não termina no fim da obra, ficando o leitor livre para continuar a sua própria invenção (até ao zero, que mais do que uma vez é citado). Não termina porque são apenas catorze poemas (é um macro-soneto). Com catorze anos, tive o primeiro grande sofrimento da minha biografia (o que não é relevante para a leitura do livro).


"mas uma invenção

vem sentido o dar
a vOz que a tudo isto cede eros e canta (e não cessa)

o do fim do fim"



Agradeço a generosidade de todos os leitores que me queiram acompanhar nesta aventura.

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