quinta-feira, janeiro 14, 2010

Nota "Un prophète"

"Un prophète", de Jacques Audiard, é um filme muito bom, brutalmente bem representado. Está a milhas de "Agora" de Alejandro Amenábar (achincalhamento académico de uma intenção polémica algo semelhante), mas não se compara a "La graine et le mulet" de Abdel Kechiche (que é solidário com o desespero até ele se tornar profundamente incómodo para o espectador - o oposto da estética telejornal).

O realismo, especialmente quando rigoroso como este (o realizador não sabe o que fazer das sequências com o fantasma), corre sempre o risco de se reduzir ao osso da narrativa, ou seja, de empobrecer quaisquer possibilidades semânticas. Devo aliás dizer que, perante "Un prophète" (como perante "The Hurt Locker" de Kathryn Bigelow), fiquei com a sensação de estar a ver um filme excelente, mas um filme que já vira muitas vezes (se bem que nem sempre tão bem feito)...

Mesmo assim, há indícios de discursividade suficientemente interessantes para que a obra tenha grande relevância para a contemporaneidade. Sugere-se que a coesão agressiva do mundo árabe pode resultar de um passado de marginalização (o protagonista é sempre tratado como criado pelo grupo de corsos, mas, se assim não fosse, talvez nunca tivesse traído aquele que constituía a figura de um pai espiritual), e denuncia-se que a quebra da inocência foi provocada precisamente por aqueles que no presente estão à mercê dessa agressividade (o facto do árabe ter sido obrigado a cometer um homicídio é que lhe abriu o caminho traumático para a sua posterior perversão moral). O próprio título do filme não se restringe a uma ironia narrativa: ele pretende ser a ferida exposta de toda uma "civilização" cuja guerrilha suja se confunde com o discurso religioso. E Audiard trabalha tudo isto com um tão grande sentido de urgência, que nem José Manuel Fernandes o conseguiria acusar de "correcção política".

A surpresa que "Un prophète" me trouxe, porém, é a ideia de que uma profecia é a forma que temos de organizar calculadamente, e dentro dos limites do cárcere, a nossa liberdade futura. E não, isto não é metafísica, mas pura política.

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