domingo, janeiro 03, 2010

Nota "Jaime"

Ao rever o primeiro filme de António Reis (Margarida Cordeiro ainda não co-assinava a realização), fiquei surpreendido pela sua força silente. Toda a primeira parte, constituída por imagens de doentes psiquiátricos num pátio, é oferecida ao espectador sem o benefício (da certeza) de uma banda sonora. Curiosamente, a câmara espreita esse mundo calado através de uma espécie de janela, ou escotilha, que evoca o efeito de íris que era tão caro aos realizadores do cinema mudo. Opção inconsciente? Infelizmente (?), não o sei.

Quanto mais tempo passar sobre "Jaime", mais a ruralidade que ele documenta será invadida pela energia da loucura. Estamos a ficar tão ignorantes quanto à civilização aldeã, que o seu excesso (de beleza, de dureza) adquire pergaminhos de irracionalidade. Quando vi, na imagem que ilustra este post, aquelas três maçãs penduradas por fios, perguntei a mim mesmo: seria um hábito camponês, ou é uma opção de encenação poética (como noutro passo acontece claramente com um guarda-chuva aberto)? Infelizmente (!), não o sei. Mas compreendo melhor a loucura de Jaime, as suas fontes, os seus nutrientes, o seu espaço duplo de liberdade e prisão.

Este filme tem o mais belo plano fixo de flores que já vi em cinema. De lobo e de louco todos temos um pouco?

4 comentários:

petit paysan disse...

"invadidos pela energia da loucura", "excesso irracional de beleza". é isso.
a humildade do paraíso ao alcance da coragem poética. gosto muito.

pedroludgero disse...

e fala um verdadeiro paysan... :)

petit paysan disse...

escrevo de um país distante, que por vezes aparece, em telas incendiáveis :)

pedroludgero disse...

tomarei o "expresso do fogo" :)