domingo, janeiro 03, 2010

Argumento privado

Penso que já aqui disse que não tenho propriamente uma opinião sobre a querela levantada pela iminente entrada em vigor do novo acordo ortográfico para a língua portuguesa. Não se pode ter opinião sobre tudo...

A dimensão etimológica da ortografia não é uma manifestação de verdades arquetípicas, mas o resultado de uma opção histórica concreta, contingente e questionável (os Renascentistas curtiam o latim). Não me custa, por isso, abandonar esse rigor. A questão dos possíveis erros de pronúncia que a nova ortografia pode causar é, claro, uma falsa questão: basta que aprendamos um novo conjunto de relações normativas entre essas duas dimensões da língua; afinal, quase tudo o que se refere à linguagem é convencional. Para além disso, estou isento de ilusões de colonialismo: a continuidade das civilizações indígenas da América do Sul poderia ter engendrado um Brasil bem mais glorioso do que este que, por gentileza, dá futuro ao português.

Por outro lado, não me parece que um conjunto de leis sobre ortografia constituam um passe de mágica capaz de dar força internacional à língua de Camões. Sem modéstia nem vaidade, acho que se eu produzir um excelente texto literário, tenho mais chances de gerar curiosidade pelo meu idioma do que qualquer acordo palopiano (não disse pavloviano, atenção). Quem diz literatura, diz ciência, pensamento, política. E quanto ao mito contemporâneo (tão capitalista quão socialista) da facilitação, respondo que só é fácil a dificuldade que cada um por si mesmo conquista. Ou seja, em vez de servir de bandeja, prefiro ensinar a cozinhar.

Espero que Vasco Graça Moura (que será o mais eminente dos intelectuais, não é isso que está em causa) nunca venha dizer publicamente que a legalização do casamento entre as pessoas do mesmo sexo não é um assunto prioritário... Pois eu gostava de saber qual a prioridade de todo este chinfrim em torno de mais letra, menos letra. E eu até sou daqueles que podem afirmar que o seu exílio é a língua portuguesa.

Tenho, contudo, um argumento muito meu contra este acordo superstar. Parece-me que se vai limpar, da ortografia da minha língua, o pouco que ainda lhe restava de uma certa beleza selvagem. É um luxo meter uma uma letra numa palavra para ninguém a pronunciar! Um luxo luxuriante. A escrita vai ficar mais parecida com um alicate do que com um sexo. Mas quem se interessa por isto? Só sei que, no meu próximo projecto de poesia (apropriadamente intitulado "uma selva"), tentarei inventar uma ortografia que o leitor possa namorar.

2 comentários:

Rogério Nuno Costa disse...

liuxo luxuriante, pois então! concordo plenamente.
e só por causa deste texto, autorizo que me envies o teu livrinho! :P

já te mando a morada.

abraço!

pedroludgero disse...

agora, sou "eu" que vou a tua casa!

ab