segunda-feira, maio 25, 2009

Poema para uma criança

metáfora com aviso de recepção


basta dizeres:
o selo é uma abelha
e podes passar a viver num mundo novo
novo, outro e teu

um mundo
onde as abelhas trazem nos dorsos
os rostos de gente importante para a tua nação
como o pai e a mãe
o bicho de estimação
e o mágico que no circo faz de uma coisa
outra coisa

um mundo
onde as abelhas levam
da centáurea azul até ao malmequer registado
cartas com assuntos de amor
ou desassuntos de estado
onde os doidos coleccionadores
cuidam de álbuns cheios de zumbidos interiores
e onde quando lambes a pegajosa abelha
talvez tenhas a sorte de provar um pouco de mel

ou um mundo (Colmeia de Portugal S.A.)
no qual selos ferozes defendem o segredo das cartas
com desassuntos de amor
ou assuntos de estado
cartas que afinal
são pedaços de cera com pavios de distância
que os mesmos selos
(nos quais a gente importante para a tua nação está viva)
inflamam pelos ares em voo expresso

um mundo em que tens de proteger a conversa
para ela não entrar em vias de extinção

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