domingo, maio 31, 2009

Conversando com Georges Bataille



Da leitura dos deslumbrantes (e delirantes) textos de Georges Bataille sobre o sol, retive principalmente uma daquelas ideias que, apesar de uma vez formuladas nos parecerem óbvias, a verdade é que nos trazem uma novidade tal e tão justa que abrem para um sem-fim de possibilidades. Bataille diz que, quando não olhamos directamente para o sol, ele tem uma beleza perfeita. No entanto, quando o contemplamos de frente, ele já nos impõe uma perigosa fealdade. De uma penada só, destrói-se a suposta tranquilidade (ou mesmo a bem-aventurança) solar de não sei quantos espíritos geniais que a espécie humana já engendrou. De facto, o sol representa um dos modos da perfeição (devo, no entanto, sublinhar que Bataille o exprime sem grande consciência de que essa visão corresponde a uma reclamação de virilidade...). O outro será a água (mas a água vem sempre depois, como se fosse uma costela que o sol, indulgente, resolvesse ofertar ao planeta Terra). São perfeições porque são condições sine qua non da vida, tal como a conhecemos. No entanto, o sol é incontemplável (sob pena de cegueira), e nessa evidência está contada toda a terrível História das nossas aspirações à perfeição.

Outra afirmação brilhante (mas mais polémica) de Bataille é a que defende que, quem pretende ser um sol (um motivo de ofuscação), está a optar por ser um excremento, um elemento mutilado da homogeneidade da sociedade humana. Isto diz muito sobre o escritor: Bataille (cuja leitura me deixa em estado pré-extático, como só a prosa de André Breton consegue) comporta-se como um maldito, é certo, mas como um maldito divino, um Prometeu capaz de nos convencer que a flor e o cu dos macacos pertencem a uma mesma poética. Bataille é um Deus, e nisso (assim como no delírio conceptual que daí advém) está a sua graça. No entanto, a afirmação não é universal (e portanto, a sua verdade é dúbia): há demasiados marginalizados que nunca o pretenderam ser. Apenas se mantiveram fiéis a si mesmos...

Onde eu entro em total desacordo com o escritor é quando ele defende a noção (magnificamente sedutora) de que, para o homem não se tornar um escravo do utilitarismo (o que o levaria a perder a sua vitalidade), este deveria deveria entrar em comunicação mítica com a hipótese de um olho situado no cimo da cabeça (o olho pineal) que fosse capaz de olhar directamente para a celebração solar (para a prodigalidade de energia). Mais uma vez estamos em presença do homem com vontade de ser um Deus, do homem que aceitaria viver em orgasmo contínuo (queria vê-lo, queria...), de um homem para quem a humildade do verbo será sempre insuficiente. Interessante, mas incompleto.

Bataille confunde a humanidade do Homem com algo que teria de existir fora dele mesmo. Como se a natureza humana, sem a prática virtual de uma ambição divina, se confundisse sempre com o utilitarismo. Não o creio. O Homem tem a liberdade e a imaginação suficientes para criar (ou experienciar) a sua própria possibilidade de ofuscação. Uma ofuscação que cegue não de um modo estrito, mas de um modo, precisamente, virtual. Ou seja, eu posso olhar outro ser directamente nos seus olhos, e abrir-me a uma ofuscação profundamente não-racional, tão corpórea quanto intelectual, que até me pode ser prejudicial (façamos a vontade ao autor), mas que se mantém ao nível da riqueza imanente à minha humanidade. Não estou a separar o corpo do espírito (reduzindo a cegueira de Bataille a uma metáfora sem força). As duas entidades existem em continuidade. Estou a dizer que, se a beleza solar só me foi dada enquanto possibilidade indirecta, então é essa positividade indirecta que eu, enquanto ser vivo, ser amante, cidadão, criador, etc., quero cultivar. O meu sol não faz de mim um Deus, mas abre-me todo o leque das ambições humanas. Ao contrário de Bataille, não preciso de um olho que não tenho (nem o cu florido do símio nem a hipótese abortada do olho no cimo do crânio) para entrar em contacto com a festa da energia e com o risco da desrazão. Não distingo entre humildade e avidez.

Eu diria, pois, que a Humanidade se divide em duas ideologias (é o meu momentozinho maniqueísta). De um lado, há aqueles que militam (como eu) pela embriaguez, pela sexualidade, pela imaginação, enfim, por uma liberdade que transcenda a dos códigos jurídicos. Mas esse bando de aventureiros improváveis acaba por fazer entrar a crueldade no seio da sua ideologia. A leitura de Bataille implica a paciência de aturarmos o seu gosto pelas violências mais escabrosas, que vão desde a exaltação do crime (de novo, o excremento como inverosímil opção) até à celebração da auto-mutilação física (sempre a maldita orelha do Van Gogh). Eu tenho demasiado respeito pela minha integridade física e psíquica, ou seja, sou demasiado terra-a-terra para me apetecer conviver com a crueldade por pura snobeira intelectual (ou por estar, de facto, a um passo de ser internado no Conde Ferreira...).

Mas do outro lado da barricada, há aqueles que, defendendo a generosidade como ética de vida, confundem o prazer da dádiva (o prazer solar, ao fim e ao cabo) com os votos de obediência (a alguém ou a alguma ideia), castidade (em sentido lato) e pobreza (de espírito ou de desejo). Ou seja, o capitalista filantropo que esmaga a diferença sexual e ganha uma enxaqueca à menor hipótese de uma insurreição popular acaba por, nesta minha visão simplista das coisas, se equivaler ao cineasta que filma como um pobre, que só filma os pobres, e que não admite nenhuma alegria por causa da culpa colectiva da pobreza. Direita e esquerda, reunidas no mesmo saco de tiques sacrificiais.

Que humanidade entediante, caro Bataille, caro Pedro Costa. Somos seres do verbo, e o verbo tem em si a brecha de arbitrariedade à qual o corpo que o enuncia consegue impedir a falsidade (ou pelo menos, torna-a sempre exposta: é apenas a questão do leitor ser um bom crítico). Não podemos nós juntar a festa ao interesse pelo outro, o sexo à política, não poderemos nós escolher uma embriaguez de generosidade?

Aparentemente, não. E que tenho eu com isso? A ética não vem na Bíblia, no Freud, nem no programa do Sócrates. O meu sonho solar é a possibilidade de a generosidade acabar por um dia se confundir com o desejo.

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