quinta-feira, maio 28, 2009

Conforme vou escrevendo...

... vou-me convencendo de que uma das dinâmicas estruturantes do trabalho poético é a fricção da tutela trans-histórica do Mito com a vontade de desbravar um caminho novo para o futuro (ou, pelo menos, um caminho fiel ao presente). Por muito que hoje o mundo finja estar reunido em torno do facebook e do twitter, a verdade é que ninguém consegue fugir às problemáticas do amor, da morte, da amizade, da guerra, da pobreza, da cidade, da criação, do envelhecimento, da doença, da intervenção política, etc. Basta eu substituir aquelas palavras por casamento gay, sida, Iraque, Berlim, Vampire Weekend, ou Bloco de esquerda, e os temas já não parecem clássicos (como o pós-modernismo gosta de os baptizar).

Os momentos mais exuberantes da poesia de Adília Lopes surgem quando a poetisa (como ela gosta de se chamar) traça tangentes aos mitos. É o caso do poeta de Pondichéry, que ninguém percebe se sofre por os seus poemas serem maus, ou porque Diderot os considera maus. Ou seja, Adília Lopes tenta minar o mito da autoridade legitimadora do aspirante a artista. No entanto, note-se que a dada altura a poetisa quis dedicar toda a sua obra a Agustina Bessa-Luís (que bem pode ser uma espécie de amarantino Diderot do século XX...). Mais, sendo Adília uma das mais honestas poetas que escreve hoje em português (especialmente dada a sua aparentemente contraditória mitomania autobiográfica), e parecendo-me a mim (é uma opinião) que o seu edifício verbal está assente numa ferida de solidão, a inquietude do poeta de Pondichéry parece indiciar a inconfessável vontade que um poeta tem de ser amado. Não tenha, leitor, medo destas palavras. Eu prefiro o poeta que tenha a lata de, sem querer, revelar que quer ser amado, àquele que pretende ser admirado, estudado, premiado, estatuado, comendadorizado, ensinadonasescolasado, nobelizado, e etc., e etc. De certa maneira, Diderot é uma figura que se impõe por uma ausência semelhante à do marquês de Chamilly. E se Adília me parece honesta, é precisamente porque percorre o labirinto destas ironias todas (e que poeta engraçada é Adília) sempre a partir do pressuposto da tangente. Porque é essa a nossa relação com os mitos: sejamos cônjuges burgueses ou valdevinos com a girl in every port, estamos sempre a traçar tangentes ao mito fundador do amor.

O poeta mais forte talvez seja aquele que, desbravando os caminhos do futuro, consegue fundar novos mitos. Nesse sentido, o Baudelaire permanece fundamental: o convívio com a decadência urbana, com as diversas formas de embriaguez, com o erotismo liberto e proibido, a consciência de queda, da conflitualidade conjugal, da morbidez, tudo isso foi brutalmente exposto pela sua poesia e, a despeito de modernidades ou pós-modernidades, continua a configurar toda a nossa contemporaneidade.

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