quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Partilha 9

Recebi hoje os primeiros exemplares do meu livro "Leilão de pensamentos", editado pela Câmara de Sintra, onde recebi um prémio em 2005. Presumo que a sua venda se fará nas livrarias usuais. Este é o excerto que está transcrito na contracapa:

Toda a gente diz que os rios podem ser imaginados como espelhos. Toda a gente diz também que os Lugares Comuns albergam todos os seus cidadãos sob a bandeira da evidência. Mas do que ninguém se lembra, é do profundo drama que emoldura a condição especular do rio. Pois se, de Heraclito a Luiza Neto Jorge, ninguém duas vezes passa o mesmo rio, os rios correm e recorrem, afastam-se como a vida e o tempo, o certo é que os reflexos que neles se fixam não viajam com o seu espelho líquido, paradoxo doloroso em que a imagem se mantém apesar do nomadismo do seu suporte. Imagine-se um poema em que as palavras mudassem a cada segundo, as construções sintácticas variassem por cada capricho do acaso, os achados do poeta desaparecessem de uma forma tão célere quanto a da sua revelação, mas onde as imagens que ecoam o mundo fossem invariavelmente as mesmas... É isto um rio.

Era, portanto, uma vez um rio.


(Infelizmente, o título do primeiro conto foi grafado de maneira irritantemente incorrecta. O texto chama-se "As magnólias", mas o que por lá aparece como título é... "As agnólias" (???). Espero que o disparate não desincentive o potencial leitor)

1 comentário:

dora disse...

.... é esse o drama dos seres líquidos: cumprir-se no eterno novo, permanecendo;
são os rios sábios nessa dupla possibilidadede vida: entregando-se e indo assim, inteiros, são.

(o rio de mim começou num 8 de julho)