segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Partilha 8

(Como juízo não o tenho em abundância, alguns dos livros que desejei escrever, decidi escrevê-los em simultâneo. Estou por isso a trabalhar numa meia-dúzia de projectos ao mesmo tempo. São meses e meses que se passam sem que eu termine seja o que for. Ora agora escrevo ali, depois acolá, e a coisa não se dá por terminada.

Visto que consegui concluir uma pequena peça de teatro, resolvi abrir o champanhe sob a forma da partilha de um brevíssimo excerto do texto. É claro que agora a coisa vai arrefecer, e será sujeita a posterior reescrita. Mas isso não impede que o narciso, sempre impaciente, não se mostre um bocadinho.

A peça chama-se "A luz dada não se olha o teatro ". A personagem Beatriz é cega.)

(...)

BEATRIZ (entusiasmada)

Estamos no jardim? Naquele jardim de que me falavas?


LUCÍLIO

Não te cheira?


BEATRIZ

Ainda há constelações de diospiros?


LUCÍLIO

Mas tu pensas que as coisas do céu se vão embora assim sem mais nem menos?


BEATRIZ

Tu foste a minha coisa do céu, e permaneceste em mim pouco tempo.


A iluminação integral do palco é substituída pelo foco.


BEATRIZ

Às vezes penso que não foste tu que estiveste dentro de mim, mas um pássaro, ou outra coisa assim insignificante.

(...)


3 comentários:

Amet disse...

Gosto muito do que escreves, mas continuo a não perceber o que significa escrever "uma peça de teatro". Será a composição por diálogos (didascáleas tb), a possível encenação/corporalização?? Segundo Ortega y Gasset, teatro não se define como um meio (segundo o filosofo, teatro significa somente 'espaço em que se observa algo'. Cusset, pelo seu lado, afirma que a literatura (a partir de determinado momento, não me lembro quando, até e principalmente ao momento presente) impõe a sua superioridade e domínio sobre todas as outras actividades, pela sua capacidade de amplitude, democracia e multiculturalidade. Assim, tb o teatro se vê (ainda hoje) dominado e subjugado a uma disciplina literária, a Escrita Teatral, que, a meu ver, deveria mudar de nome. (Pq não escrita cinematográfica, ou poecção/fixema). A escrita teatra tal como concebida hoje, é um simulacro formal de uma escrita que teve o seu culminar no advento dos grandes espectáculos burgueses, onde arte e entretenimento se fundiram num só e mesmo objecto (muitos objectos que como se vieram a ver, foram execráveis, totalitários e massificadores), O corpo histórico de alguns desses escritores sobreviventes (as suas intenções artísticas) devem e têm de ser vislumbrados nas suas denominadas 'obras teatrais'. Só assim se ultrapassará o simples Gestalt. Só assim se compreenderá o presente momento. Quando à pouco tempo afirmei num frente-a-frente com outro criador, de que os artistas têm obrigatoriamente de ser dferentes, de criar diferença quer queiram quer não, mesmo que lhes custe largar o seu estilo, levou muitos a acusar-me de querer estar constantemente na moda. Pois continuo a afirmar a todos esses que me acusaram, que ou não percebem ou não querem perceber. Mas Llansol, que ambos admiramos, explica. Ela explica tudo.

pedroludgero disse...

Não entendi muito bem onde pretendias chegar com o comentário. Eu também acho que o artista tem de ser sempre "diferente", mas, e nisso estou em dissonância com a história da arte recente e actual (e parece-me que, desde logo, contigo), não consigo atribuir demasiada importância a uma teorização a priori. Sou um intuitivo, e defendo que o artista é "diferente" de modo distinto do pensador. É "diferente" se tudo o empurrar a ser "diferente".
Mas entendo o teu desconforto, e sei que não estás "na moda", mas és verdadeiramente "moderno" (ou pós, ou sei lá mais quê, não dês demasiada importância aos termos).
No poecção/fixema que escrevi, tentei projectar algo que ainda não vi em teatro. Não é uma coisa "clássica", apesar do excerto partilhado poder induzir essa leitura. Muitas vezes aproxima-se de um guião cinematográfico, ou de uma "obra aberta" musical.
Grato pelas tuas reticências, perguntava-te se quererias ler a "peça", um dia que não tenhas mais nada que fazer? Gostaria de conhecer as tuas impressões.

Amet disse...

O ponto a que eu queria chegar (e que não cheguei, mea culpa. demasiadas vezes falo mais do que digo) era somente sobre a nota inicial do texto que refere uma pequena peça de teatro.
Anyway, teria muito gosto em ler. Direi mesmo, será um prazer. O meu mail é o frente_andre@hotmail.com.
Para a comunidade (mesmo que seja hiper-real), tenho sempre tempo.
abraços
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