segunda-feira, fevereiro 05, 2007

O sonho criador

Maria Zambrano usa a palavra despertar em dois sentidos: o homem desperta dos sonhos em que o sono o embrenha para poder assumir a vigília, mas também desperta da realidade consciente devido à intromissão intermitente da atempo- ralidade onírica na sua vida (atempo- ralidade que lhe permite ir recuperando o seu ser, sem que para isso ele se aliene de uma existência suportável). Esta polissemia do despertar pode até criar alguma confusão ao seu leitor, enquanto ele não se aperceber de que, para a pensadora, o sonho e a vigília estão relacionados entre si como duas transcendências mútuas.

A palavra em questão é utilizada com a mesma ambiguidade que colocamos na ideia de crepúsculo: este tanto se refere à transformação da noite em dia, como ao ocaso que esconde a nossa estrela tutelar no outro lado do planeta. De facto, bastaria que Zambrano não pensasse em termos de despertar, e se agarrasse à dinâmica do crepúsculo, para que o seu antropocentrismo evoluísse num sentido quase cósmico. Pois não há nenhum salto qualitativo no movimento da Terra em torno do Sol. Tudo nele é continuidade, não há transcendência.

A autora podia ter encontrado uma espécie de imanência do sonho criador, o que talvez fosse mais libertário. Mas Zambrano é humanista até à medula, entende a nossa espécie sem absurdo. Eu também coloco o Homem como horizonte essencial do meu pensamento, mas a excepção que ele constitui sempre me pareceu mais angustiante do que exemplar.

No fundo, a inteligência humana pode ser a mera aceleração da inteligência do universo.

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