segunda-feira, fevereiro 26, 2007

O INACTUAL 12

"Close-up" - Abbas Kiarostami (1990)


A obra de Kiarostami é o resultado do surpreendente encontro dum pensamento de vanguarda (sempre consistente, dinâmico, e inquieto) com a paisagem humana e física específica do Irão. Não só essa especificidade contextual abriu o cinema a novas possibilidades de imagens (que o realizador recolhe à margem tanto do exotismo como do jornalismo), como o próprio contraste entre um ponto de vista libertário e uma sociedade repressiva nos coloca a nós, espectadores, renovadas questões éticas e políticas.

Em "Close-up", Kiarostami parece querer defender que um realizador de cinema é alguém que assume, de forma algo megalómana, um papel que, no fundo, não lhe pertence. E isto não se refere ao personagem do aldrabão que o filme documenta, mas a F. Murnau, Robert Bresson e Peter Bogdanovich. Aquilo que está prometido na mitologia do realizador é de tal modo amplo (tanto ao nível das liberdades estéticas, como do ponto de vista da notoriedade mundana), que ultrapassa sempre a realidade do indivíduo.

Entrando assim pela porta da parábola, posso defender que o aldrabão de "Close-up" pretendia, de facto, roubar a família rica. Roubar, pelo cinema, o seu estatuto social (a imagem desse estatuto e as suas consequências). Roubar, pela imagem da realidade, a realidade da ficção.

O verdadeiro realizador é, então, aquele que devolve, aos destinatários do seu cinema, aquilo que a sociedade lhes tirou (a capacidade de expressão do sofrimento, a dignidade, o horizonte de futuro: no fundo, a inadequação entre ficção e real). E é nessa reviravolta na ordem da generosidade que se distingue o mero arrivista do autor íntegro.

Kiarostami assume a sua responsabilidade pelo povo que filma (é o único realizador que consegue filmar as pessoas como se estas fossem crianças, sem que alguma vez fiquemos incomodados com qualquer paternalismo), e a sua câmara compromete-se a registar a Justiça em sentido lato (daí que a imagem que desta formamos dependa essencialmente da Montagem global).

O close-up no qual insiste ao longo da obra é uma afirmação ética: não precisa de ser inflacionado por uma aura de sonho (como, de um modo rigorosíssimo, acontece em "La passion de Jeanne d'Arc" de Dreyer, ou "Vivre sa vie" de Godard), porque Kiarostami não estabelece diferenças artificiais entre pensar sobre a vida, intervir na vida, e fazer cinema. Não precisa de transcendência.

Entre as árvores outonais e a alegria mozartiana das flores, o autor reinventa a candura e redescobre a esperança.

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