domingo, fevereiro 11, 2007

O INACTUAL 11

"Ordet" - Carl T. Dreyer (1954)

Nos seus filmes mais conhecidos, Dreyer construiu imagens do tempo (passado ou a passar), através do poder de evidência do espaço. "Ordet" (filme em que o principal elemento do cenário é um relógio) parece funcionar ao contrário.

O autor refugia a acção da sua obra no meio rural, espaço de resistência à aceleração do mundo nos anos cinquenta. O enredo apenas segue, aliás, duas linhas de orientação: a discussão de pontos de vista sobre a prática religiosa (em processo de perda de consenso), e a necessidade conservadora de manutenção de uma mulher no lar familiar.

As célebres panorâmicas com que o filme foi construído têm diversas funções: a materialização formal da crise instalada na ligação entre as personagens (na religião), a tomada de consciência de que os movimentos de aproximação têm de passar pelo vazio, a revelação do cenário (casa e espaço rural) através da lentidão dos gestos da câmara (através da evidência do Tempo).

Quando se dá o milagre final, o filme abre em abismo: irrompe a sensualidade, os actores cruzam os seus olhares (até então, dialogavam sem se confrontarem), regressa a montagem por corte (a velocidade emocional da sequência tornou-se incompatível com as panorâmicas, o vazio foi preenchido). E em torno do campo de atracção da imagem da mulher morta, gira um contracampo estarrecido (onde é oferecida a nova mulher para a família dos Borgen).

O abismo é metafísico: neste filme, o tempo pára, literalmente, para que os Homens se organizem espiritualmente, e quando recomeça, o espaço (lar, campo) adquiriu a sua plenitude mítica. Se a ressurreição nos comove, é porque este é o único filme que a ela tem direito.

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