quarta-feira, fevereiro 21, 2007

O ACTUAL 9

"Letters from Iwo Jima" - Clint Eastwood

A velhice pode trazer maior ousadia: Eastwood cada vez é mais grave quando se debruça sobre a morte. Definitivamente, interessa-lhe polemizar (como se fosse um pensador inquieto) o teorema onde perecimento e vontade se relacionam em desconforto. Este filme forma um díptico com "Million Dollar Baby": onde aqui éramos levados até uma eutanásia fundada no amor (e não num argumento), na ilha de Iwo Jima revela-se tudo aquilo que pode ser (ou não) válido num suicídio.

Como um clássico, Eastwood denuncia a fronteira ténue entre nobreza e estupidez. Como um moderno, critica todos os fundamentos da cultura (aqui, a mentalidade harakiri do Japão). Como humanista, resiste a todas as abstracções, e dá uma atenção sensata a cada personagem.

A masculinidade do tom (que já lhe permitiu encenar melodramas sentimentais) ajuda-o a filmar a epistolografia como um recurso de paz (como uma suspensão na brutalidade, uma conjunto de ilhas dentro da ilha).

Só lamento que, não acreditando eu nos espirros de sangue e nas explosões como formas de filmar o horror (tu n'as rien vu à Hiroxima), o realizador não tenha tido mais tempo para desenvolver as suas personagens: o padeiro que gostava de ler, ou esse extraordinário Barão Nishi de que Homero, por certo, não desdenharia. O filme, afinal, é delas...