quarta-feira, fevereiro 21, 2007

O ACTUAL 8

"Das leben der anderen" - Florian Henckel von Donnersmarck

Já há algum tempo que não tinha vontade de falar sobre nenhum filme em cartaz. Mas eis que chegam dois títulos políticos que não pretendem passar despercebidos.

O cinema alemão contemporâneo tem-se regulado por uma relativa mediania (longe vão as ambições de Lang ou Fassbinder). Mesmo assim, chegam-nos filmes com aquilo a que os críticos gostam de chamar bons valores de produção, filmes sobretudo interessados em dissecar a História recente do seu país (e que História...), não recuando perante as muitas feridas que por ali ainda estão abertas. E isto já é relevante.

"As vidas dos outros" é uma obra politicamente consensual (daí o recurso ao thriller), e talvez até um pouco ingénua (fiquei com a impressão de que o falhanço da Alemanha de leste não resultou de um problema político de fundo, mas da má vontade corrupta de meia dúzia de dirigentes). No entanto, à margem deste discurso, há pormenores curiosos que suscitam o interesse do espectador.

Em primeiro lugar, há uma diferença abismal entre o relato que o polícia arrependido faz da sua escuta, e aquele que resulta da pena do seu substituto: o primeiro constitui-se como uma narração limpa onde não podem ser detectadas falhas, o segundo é tão desajeitado que tudo revela das fragilidades ideológicas do sistema comunista. Só que este último relato é feito por quem só sabe da missa a metade. Pois quanto mais lúcido (e cínico) é o homem político, melhor consegue ele controlar a higiene daquilo que escreve, melhor ele evita os actos falhados, as denúncias espontâneas, as confissões não pretendidas. Ao contrário da ingenuidade do seu fundo, o filme mostra as costuras com que a forma se cose.

Mas o que me seduziu foi sobretudo o tema do anjo da guarda. Todas as vezes que a actriz se encontra com o seu polícia protector, este surge como uma aparição pré-religiosa. Primeiro, no café, ele aparece (literalmente) do nada para lhe mudar o rumo da vida. Em seguida, é o interrogador capaz de salvar essa vida. E por último, ressurge no momento da morte dela. Quando ele a questiona, no momento-chave da sua vida ética, as palavras adquirem uma densidade tal que praticamente ouvimos um sobretexto calando tudo o que ele diz: é, deveras, a língua do espírito.

O mais belo é deixado para o fim. Pois que mais pode um escritor do que dedicar um dos seus livros a um anjo? E um homem cuja vida está destruída, que melhor sentido pode essa vida adquirir do que aquele que resulta de ter um livro escrito especificamente para si?

Por entre os destroços do cenário político, algumas brechas se abrem para outras formas de ser homem em plenitude.

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