sábado, fevereiro 24, 2007

No escrínio 16

Poema de Paul Celan, traduzido por Y. K. Centeno


Com chave mutável

Com chave mutável
abres a casa em que
vagueia a neve daquele que foi silenciado.
Conforme o sangue que te brota
dos olhos, da boca ou dos ouvidos,
muda a tua chave.

Muda a tua chave, muda a palavra
que pode vaguear com os flocos.
Conforme o vento que te empurra
assim aumenta a neve em torno da palavra.



Na juventude, Celan manteve um relacionamento algo conflituoso com o judaísmo (não só devido à sua liberdade de espírito, mas também por causa da relação difícil com o pai). No entanto, os dramas colectivo e individual que resultaram do Holocausto, se não fizeram dele um religioso convicto, tornaram-no pelo menos consciente da sua pertença a um povo historicamente espezinhado para além de todo o suportável.

A primeira ideia que ressalta da leitura deste poema é o facto da neve daquele que foi silenciado estar condenada a vaguear. Mesmo sendo Celan um blasfemo dos símbolos (a sua leitura dos textos sagrados é a de um cabalista do desespero), parece claro que este silenciado que vagueia é o judeu sentenciado a errar pelo mundo. Mas não só errante: também esmagado até à mudez.

A escolha da palavra neve comporta toda a força ambígua do poema. Não me parece que a neve esteja aqui para sinalizar o branqueamento (ou pelo menos o embelezamento) da tragédia hebraica às mãos dos apaziguadores da História (embora a poesia de Celan destile uma raiva mais complexa contra o lirismo fácil do que qualquer tese de Adorno). Não, a neve entra no poema como solidificação do silêncio-dor, como memória que não desapareceu mas que já só queima por estar terrivelmente fria.

Para vivificar essa memória, é preciso que os outros estados químicos activem a palavra. O sangue líquido, o vento gasoso: eles garantem que a palavra se junte aos flocos no seu vaguear. Se tudo no poema é errante (o vento empurra o poeta; o seu sangue pode mesmo sair de diversos órgãos porque a dor não tem especialidade), também a palavra o tem de ser.

Nesta arte poética grave, Celan defende que o regresso a casa (regresso ao judaísmo onde vagueia neve, ou porque essa casa está desabitada e em ruínas, ou porque constitui um exterior dentro de um interior:uma liberdade, portanto) deve ser feito com uma chave mutável. Não é preciso entrar em imbricados simbolismos. Esta não é a chave-mestra que abre todas as portas. Não é a gazua do assaltante. É a chave da plena disponibilidade, do devir inquieto daquele que pretende dar voz ao silêncio. Pois se esse silêncio é agora de cristal, a palavra, ao fundir-se com ele, não só deixa o poeta regressar a casa, como deixa o judeu sair do seu silêncio (as portas têm dupla função). A palavra age.

Poema-neve: o seu único imperativo é a mudança constante do mundo.

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