terça-feira, fevereiro 13, 2007

No escrínio 15

Poema de Regina Guimarães:

Falavas de dor
e dormias.
Parecias
uma ferida vista de avião.
Onde vai poisar a imagem
se o chão foge do chão?


Talvez por estar a ler a Maria Zambrano, lembrei-me deste pequeno texto que faz parte do livro "Tutta", de Regina Guimarães. Pois também esta autora liga, por conjunção copulativa, duas acções só na aparência distintas: o dormir (em consequência, o sonhar) e o falar de dor. Se muitas vezes enunciamos um sofrimento, fazemos a sua evocação, o seu esquema, não significa isso que dele estejamos a falar de facto. O poema parece mesmo defender que o falar de dor comporta uma atemporalidade análoga à da passividade onírica. O pretérito imperfeito, mais do que situar a acção no passado, evidencia um tempo de algum modo suspenso, isento da sua mutabilidade real.

No entanto, nada disto é assim tão simples. A poeta (porque poeta é) sabe que tem a distância de observação necessária para escrever essa ferida (o escritor é um virtuoso da perspectiva). A dor apresenta-se em toda a sua abrangência, a meio caminho entre o vivê-la e o mapeá-la. Todavia, nenhum poeta resiste a seguir a lógica da imagem que escolheu: e é aqui que o texto se torna metafísico. Pois se a autora quer poisar a sua imagem (aterrar o seu poema), o facto é que o chão foge do chão. Não tanto porque o poeta se mova a uma velocidade excessiva, mas porque a sua visão cria uma superação do movimento (uma temporalidade) onde ele nem sequer pretende existir. A dor apresenta-se andante a quem a ela se dedica com convicção. Pelo exercício da palavra, o poeta atiça a transcendência que apenas estava anunciada no sonho.

Também a ele lhe pertence a criação da imagem-tempo.

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