segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Crónica do vinho

Depois de alguns anos de abstinência, ele achou que podia recomeçar a tomar um copo de vinho em cada refeição. O prazer, quando abre as suas urnas, não permite a abstenção. Entre a dor e o nada, o desejante não é eleito pela segunda hipótese.

Com o peixe, um copo de vinho branco. Com a carne, um copo de vinho nulo. Mas em ambos o casos, um carimbo abstracto sobre a independência da alma.

Nos assuntos doces, as fronteiras querem deixar de o ser. Cada mancha (cada copo de vinho) quer diluir-se na mancha mais próxima. Primeiro é o mero desejo de arquipélago, a constelação que se forma com as linhas da obsessão. Mas depois as manchas exigem mais manchas: os momentos felizes precisam de ser multiplicados. Tudo o que pode trazer alegria requer fermentação.

Assim seja: um copo de vinho também no intervalo de dez minutos na manhã de trabalho, um copo de vinho quando o filho telefona, um copo de vinho quando o sol passa para a janela do seu lado, um copo de vinho quando passa na rádio a música do Chico Buarque, quando a colega da secretária em frente mostra sem querer uma parte do corpo, quando só falta uma hora para o fim do trabalho, quando só faltam cinco minutos, quando descalça os sapatos ao chegar a casa, quando na televisão passa "Some came running", quando a companheira quer fazer amor.

Lentamente, as manchas perdem a condição insular, e tornam-se borrão (horizonte) único: mágoa. Que subtil diferença não existe entre prazer e perdição.

Mas ele era um homem civilizado: ele tomava copos de vinho, mas nunca os enchia.

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